O Incrível Hulk (1977-1982) e o drama do herói marginalizado



Por André Azenha 

Após o sucesso do filme O Incrível Hulk (2008) produzido pelo Marvel Studios, os aficionados pelo personagem puderam comemorar o lançamento em DVD no Brasil do antigo seriado televisivo, que fugia um pouco do conceito das histórias em quadrinhos, mas obteve sucesso, sendo inclusive atração em horário nobre aos sábados na Globo.

Nele, o Dr. Banner era interpretado Bill Bixby (das séries Meu Querido Marciano e O Mágico) e  o personal trainner e Mr. Universo Lou Ferrigno encarnava o gigante esmeralda, coberto por camadas de tinta. Apesar do orçamento limitado, o produtor Kenneth Johnson (V: A Batalha Final) tinha o apoio de Stan Lee (um dos criadores do personagem).

Bill Bixby in The Incredible Hulk (1977)

Assim, não foi difícil fazer algumas mudanças em relação à trama original dos gibis – o intuito era fazer o público “aceitar” a história. E uma das modificações mais significativas é que o Hulk da TV não falava nada, porém fazia muito barulho quando nervoso. O nome completo original das HQs do cientista também sofreu alteração: de Bruce Banner para David Banner – Stan Lee não escondeu em entrevistas posteriores que os produtores queriam mudar o nome de Bruce para David porque não achavam Bruce um nome “másculo”.

No primeiro episódio, Banner está trabalhando no laboratório quando acontece um acidente que acabou matando seu assistente. Contaminado pelos raios gama,  se transforma no personagem título, e acaba “flagrado” pelo jornalista Jack McGee (Jack Colvin), que passa a persegui-lo, visando “descobrir” Hulk. Inspirado no seriado O Fugitivo, Bruce torna-se um foragido da justiça.

Os roteiros eram sempre os mesmos: fugindo de McGee, o cientista mudava de nome, cidade e encontrava alguém com problemas. Algo o deixava nervoso e se transformava no Hulk.

Lou Ferrigno in The Incredible Hulk (1977)

No final de cada episódio, era tocada a memorável e melancólica música instrumental, e Banner vagava solitário e sem rumo pelas estradas americanas, pedindo carona.

Atores respeitáveis como Pat Morita (Karate Kid), Morgan Woodward (Star Trek) e Gary Graham (Alien Nation) fizeram suas participações ao longo das temporadas. Mas a fórmula se esgotou e, mesmo com o protesto do público, O Incrível Hulk foi cancelada.

Quem se acostumou aos efeitos visuais a partir dos anos 2000, principalmente, poderá estranhar o Gigante Esmeralda envolto em tinta. No entanto, o seriado era um retrato do herói marginalizado, incompreendido e que precisava viver em solidão.

A produção tomava cuidado para deixar a magia no ar. Bill Bixby evitava ser fotografado ao lado de Lou Ferrigno utilizando a maquiagem de Hulk. Sentia que, se as imagens os mostrassem juntos, destruiriam a ilusão de crianças e fãs do programa. Tabloides da época estavam sempre tentando flagrá-los reunidos e não conseguiram.

O produtor Kenneth Johnson desejava que a cor da pele do Hulk fosse vermelha. Acreditava que essa opção refletiria a ira do personagem. Stan Lee, ainda bem, rejeitou a ideia. De fato, isso é referenciado em As Novas Aventuras de Cheech E Chong (1980). Tempos depois a Marvel Comics apresentaria outro personagem que se tornaria uma criatura cujo corpo se assemelha fisicamente ao Hulk, de cor vermelha brilhante.

Recebeu um Emmy, o Oscar televisivo, de melhor atriz em série dramática, para Mariette Hartley, pelo episódio Married.

The Incredible Hulk (1977)

Após o encerramento do programa televisivo foram produzidos três telefilmes – O Retorno do Incrível Hulk, de 1988, O Julgamento do Incrível Hulk, de 1989, e A Morte do Incrível Hulk, de 1990 – que deram continuação à trama da TV, alguns dirigidos pelo próprio Bixby. Neles, aparecem outros heróis da Marvel, como o Demolidor e Thor, entretanto bem diferentes daqueles conhecidos pelos fãs dos quadrinhos. De todo modo, são crossovers bem antes ao Universo Cinematográfico Marvel. E por pouco não houve o encontro do Gigante Esmeraldo com o Escalador de Paredes.

Em 1984, dois anos depois que a série foi ao ar, Bill Bixby ofereceu a Nicholas Hammond (A Noviça Rebelde) a chance de reprisar seu papel na série Homem-Aranha (1977) um encontro entre os heróis numa produção distribuída pela Universal Pictures e Columbia Pictures. Hammond topou a empreitada, mas a Universal Studios finalmente cancelou o projeto, alegando que Lou Ferrigno estava indisponível. Por outro lado, Ferrigno disse que nunca foi contatado sobre o projeto e não tinha conhecimento até descobrir as informações enquanto trabalhava em sua autobiografia em 2003.

A série O Incrível Hulk ganharia status cult. Ferrigno apareceu nas adaptações cinematográficas do herói da Marvel e o filme de 2008 homenageou escancaradamente o seriado, utilizando o tema musical, fazendo referência a Bill Bixby e mostrando o protagonista Edward Norton (fã declarado da série) fugindo de país em país.

The Incredible Hulk (1977)
Lou Ferrigno and Jane Merrow in The Incredible Hulk (1977)

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Histórias do Cinema e da TV
Site do crítico de cinema, pesquisador, escritor, produtor cultural, curador e jornalista. Doutorando em Comunicação Audiovisual pela Universidade Anhembi Morumbi, onde também concluiu o Mestrado. Editor do site Histórias do Cinema (e do canal homônimo do YouTube). Diretor do Santos Film Fest – Festival Internacional de Cinema de Santos. Coordenador do Instituto CineZen Cultural e da CineZen Edições Literárias. Autor de Filmes que Marcaram a Cultura Pop, Grandes Curtas: Curtas-Metragens de Grandes Cineastas, Rubens Ewald Filho: Vida de Cinema! e Adelia Sampaio: O Segredo da Rosa (todos estes de 2021, pela CineZen Edições Literárias), A Era dos Boçais (de poemas, 2021), Batman: A Série Animada - Uma Revolução dos Heróis na TV (Amavisse, 2020), Histórias: Batman e Superman no Cinema (2016), Coletânea CineZen 2012, Costelas Felinas) e Poesia a Quatro Mãos (2008, de poemas). Realizou exposições sobre cinema e cultura geek, fóruns culturais e mais de 100 sessões de filmes seguidas de bate-papos em sua cidade-natal.

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