Sharon Stone, Instinto Selvagem e a estigmatização

Sharon em Instinto Selvagem.

Numa época em que as pessoas iam ao cinema sem saber ao certo o que havia no filme, Instinto Selvagem (1992) virou fenômeno de bilheteria pela curiosidade do público. No caso,pelas cenas tórridas de sexo entre Sharon Stone e Michael Douglas. O segundo filme, de 2006, é fraco. Este primeiro, entretanto, traz elementos clássicos do noir e Sharon e Michael Douglas dando show de química e atuação. Mas não foram só as cenas de sexo que geraram polêmica: os bastidores por trás de uma cena de interrogatório ressoa até hoje.

Embora Sharon Stone tenha falado sobre não se arrepender da infame cena do interrogatório policial de “pernas descruzadas”, isso lhe causou alguma angústia quando a viu pela primeira vez.

A cena é particularmente digna de nota: a atriz não está usando calcinha, fato que chocou o público e a própria Stone.  

Durante as filmagens, atriz não sabia o que a câmera do diretor Paul Verhoeven poderia capturar. Apesar de estar nua em outras cenas, ela presumiu que suas partes mais íntimas não seriam visíveis na tela, como é típico dos filmes convencionais de Hollywood.

Michael Douglas e Sharon em Instinto Selvagem. 


Durante a filmagem da infame sequência, o cineasta holandês pediu a ela que tirasse a calcinha. Segundo o diretor, a peça íntima refletia luz. A atriz obedeceu. No entanto, foi só na exibição do filme que Sharon percebeu a extensão da exposição, vendo, como descreveu mais tarde, “todo o caminho até Nebraska”.

Em sua autobiografia, escreveu: “Depois de filmarmos Instinto Selvagem, fui chamada para assisti-lo. Não sozinha com o diretor, como seria de esperar, dada a situação que nos fez hesitar, por assim dizer, mas com uma sala cheia de agentes e advogados, a maioria dos quais nada tinha a ver com o projeto."

"Foi assim que vi minha vagina projetada pela primeira vez, muito depois de me terem dito: 'Não podemos ver nada - só preciso que você tire a calcinha, pois o branco reflete a luz, então sabemos você está de calcinha.'"

A estrela continua: “Éramos eu e minhas partes lá em cima. Eu tinha decisões a tomar. Fui até a cabine de projeção, dei um tapa no rosto de Paul [Verhoeven], saí, fui até meu carro e liguei para meu advogado, Marty Singer. Depois da exibição, contei a Paul sobre as opções que Marty havia apresentado para mim. Claro, ele negou veementemente que eu tivesse alguma escolha. Eu era apenas uma atriz, apenas uma mulher; que escolhas eu poderia ter?”, reflete a artista. 

Verhoeven sempre negou que não tenha obtido consentimento. Ele disse ao ICON em 2017: “Qualquer atriz sabe o que verá se você pedir para ela tirar a calcinha e apontar para lá com a câmera”.

No final das contas, Stone deu consentimento para que a cena fosse incluída como filmada. Ela disse à CNN: “Por quê? Porque era correto para o filme e para o personagem; e porque, afinal, fui eu que fiz.”

Mais detalhes dessa história estão no documentário Basic Instinct: Sex, Death & Stone, disponível no Amazon Prime Video.

Reflexão

Sharon Stone e Robert De Niro em Cassino. 


Este incidente levanta questões importantes sobre o consentimento e o poder nas relações profissionais em Hollywood. O episódio revela como diretores e outros profissionais da indústria muitas vezes exercem sua autoridade de maneira abusiva, manipulando e desrespeitando os limites das atrizes. Além disso, a discrepância entre a percepção de Stone durante as filmagens e a realidade da cena final destaca a importância da transparência e comunicação adequada entre os envolvidos na produção de filmes. A falta de consulta pelo diretor e consentimento prévio por parte de Stone demonstra uma falha sistêmica na proteção dos direitos e dignidade dos artistas em Hollywood.

Durante décadas, Stone enfrentou uma batalha contra o estigma e o preconceito dentro da indústria cinematográfica, uma realidade dolorosa que reflete os padrões machistas e misóginos que permeiam esse segmento. Sua carreira é marcada por uma série de papéis que, muitas vezes, foram reduzidos a estereótipos sexuais ou unidimensionais, refletindo a tendência da indústria em subestimar o talento das atrizes em favor de sua aparência física.

A experiência de Stone ressoa com a narrativa de muitas outras mulheres em Hollywood, que enfrentaram obstáculos semelhantes em sua busca por reconhecimento e igualdade de oportunidades. O papel de Catherine Tramell em Instinto Selvagem, por exemplo, catapultou Stone para o estrelato, mas também a colocou sob os holofotes de um escrutínio implacável, frequentemente focado em sua sexualidade em detrimento de seu talento como atriz.

No entanto, é importante destacar que o machismo e a misoginia na indústria cinematográfica não se limitam apenas aos papéis atribuídos às mulheres, mas também permeiam as relações nos bastidores. As palavras de Stone sobre os poucos atores homens que não foram misóginos com ela em sua carreira, como Robert De Niro e Joe Pesci, são reveladoras e apontam para uma cultura enraizada de desigualdade de gênero.

O filme Cassino (1995), dirigido por Martin Scorsese, é um exemplo emblemático desse contexto. Apesar das performances brilhantes de Stone, De Niro e Pesci, é inegável que a narrativa privilegiou a perspectiva masculina, relegando o papel de Stone a uma função secundária em relação aos personagens masculinos dominantes.

Esse padrão persistente de subestimação e objetificação das mulheres na indústria cinematográfica é um reflexo de uma sociedade ainda enraizada em normas de gênero arcaicas. Enquanto Hollywood continua a enfrentar críticas por sua falta de diversidade e representação equitativa, é imperativo que se façam mudanças estruturais significativas para romper com esses padrões prejudiciais e garantir que todas as vozes sejam ouvidas e valorizadas de maneira igualitária. A luta de Sharon Stone é um lembrete poderoso dessa necessidade contínua de progresso e transformação dentro da indústria cinematográfica e além dela.

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