Superman - O Filme (1978): quando acreditamos que o homem poderia voar

 



Em 10 de dezembro de 1978 acontecia a primeira sessão de Superman: O Filme em Washington DC – no Brasil o lançamento aconteceu em 6 de abril de 1979.

“Você vai acreditar que o homem pode voar”. Esse foi o slogan nos cartazes daquele que seria divisor de águas na cultura pop e nas adaptações das histórias em quadrinhos de super-heróis para as telonas.

Seu legado dura até hoje. Mulher-Maravilha (Wonder Woman, 2017, de Patty Jenkins) usa a mesma estrutura narrativa de origem e transformação. E homenageia uma das cenas do clássico dirigido por Richard Donner e estrelado por Christopher Reeve: quando Clark Kent defende Lois Lane de um disparo à queima-roupa. No filme da Princesa Amazona, Diana faz o mesmo para salvar o capitão Steve Trevor.

O processo para concepção de Superman - O Filme começou em 1974. O produtor polonês Alexander Salkind e o filho Ilya (nascido no México), de Os Três Mosqueteiros (1973, dirigido por Richard Lester), junto do francês Pierre Spengler, adquiriram os direitos do personagem para o cinema. A Warner deu sinal verde à produção, inicialmente sem colocar dinheiro e ficando responsável pela distribuição e promoção da obra.

Marlon Brando e Susannah York fazem os pais biológicos de Kal-El. 

Contrataram o escritor norte-americano Mario Puzo, de O Poderoso Chefão, que desenvolveria o roteiro. Fecharam um acordo milionário com Marlon Brando. Um dos maiores atores de todos os tempos, muitas vezes considerado o maior, duas vezes vencedor do Oscar – por Sindicato de Ladrões (1954) e pela lendária personificação do mafioso Don Vito Corleone em O Poderoso Chefão (1972). Virou folclore ter recebido US$ 4 milhões para viver o pai biológico de Superman, Jor-El, em dez minutos de projeção.

Outro peso pesado juntou-se ao time. Gene Hackman (vencedor do Oscar de melhor ator por Operação França, (The French Connection, 1971, de William Friedkin) seria Lex Luthor.

Com dois astros e um roteirista renomado no time, o projeto começou a chamar atenção da indústria cinematográfica. O objetivo era rodar dois filmes simultaneamente na Itália – De Volta para o Futuro 2 e 3 e os três O Senhor dos Anéis seriam produzidos assim  anos depois – e deixar a direção a cargo do britânico Guy Hamilton (da franquia 007). Acontece que Hamilton só podia passar 30 dias por ano em solo italiano. Richard Donner, de A Profecia (1976), assumiu o projeto.

O melhor Clark Kent da história. E Superman também. 

Puzo havia escrito o roteiro junto a David Newman, Leslie Newman e Robert Benton. Ao ler as quinhentas páginas, Donner percebeu o tom de sátira que remetia ao Batman de 1966 e chamou o amigo Tom Mankiewicz (que escreveu os filmes de James Bond dirigidos por Guy Hamilton) para dar um tratamento no material e deixá-lo mais sóbrio. O lema no escritório do cineasta era “verossimilhança”, que viraria a “bíblia” de Christopher Nolan em sua trilogia Batman.

Adaptações de quadrinhos para a TV e cinema não causavam a mesma repercussão igual atualmente, sendo que, memoráveis mesmo, só as séries clássicas de Batman e o próprio Super, com George Reeves nos anos 50.

Visando dar fim a essa “sina”, os produtores montaram uma grande equipe de nomes conhecidos também na parte técnica. A direção de fotografia ficou a cargo de Geoffrey Unsworth (2001 : Uma Odisseia no Espaço) e vencedor de dois Oscars, por Cabaret e um póstumo por Tess – Uma Lição de Vida. Ele faleceu em 1978, ano de lançamento de Superman. O figurino é assinado por Yvonne Blake (Oscar por Nicholas e Alexandra). E a trilha sonora é de ninguém menos que John Williams, autor de, entre outras, Star WarsE.T.Tubarão e Indiana Jones, indicado mais de 50 vezes ao prêmio da Academia e vencedor de cinco estatuetas. Seriam 19 meses e 11 unidades de filmagens, e mais de mil membros na equipe utilizados para conceber esse universo.

Faltava definir o restante do elenco, principalmente o casal principal: Clark Kent/Superman e Lois Lane.

Christopher Reeve e Margot Kidder, química em cena. 

Nascido no dia 25 de setembro de 1952, na cidadezinha Mount Kisco, estado de Nova York, Christopher Reeve não teve grandes oportunidades na indústria cinematográfica até então. Inicialmente foi considerado muito magro para o papel de Superman. Assim como ocorreu em Rocky, Um Lutador (1976), os produtores inicialmente queriam nomes famosos. Robert Redford e Paul Newman foram cogitados. Até Sylvester Stallone entrou na lista de sugestões!

Donner, pelo contrário, achou que esses astros fariam o espectador deixar de acreditar na presença do Último Filho de Krypton. Preferia alguém desconhecido. Desesperados, tentaram dezenas de atores. Até o dentista da esposa de Ilya Salkind foi testado. Em determinado momento decidiram tentar Reeve novamente e o ator, suando horrores em seu uniforme de herói, finalmente foi escolhido. Precisaria apenas ganhar massa muscular e iniciou treinos intensivos.

A decisão em contar com Reeve mostrou-se um acerto absoluto. Reeve não apenas tornou-se, para muitos, o Superman definitivo, como conseguia fazer-nos acreditar que o herói e Clark Kent eram pessoas diferentes. Quando estava sob o uniforme, sua fala era empostada, agia de postura ereta, confiante, firme. Quando encarnava o repórter, curvava o tronco, falava de maneira insegura, mexia frequentemente nos óculos. Segundo o próprio ator diz em um dos extras do box lançado no Brasil, “pegou emprestado” muito do que o célebre Cary Grant fazia.

Gene Hackman, um Lex Luthor adorável. 

Lois Lane era a próxima. Atrizes como Anne Archer (a esposa de Michael Douglas em Atração Fatal, 1987), e Lesley Ann Warren (que interpretou a repórter no especial televisivo It’s a Bird…It’s a Plane…It’s Superman, de 1975, baseado no espetáculo homônimo da Broadway), tentaram a vaga. Mas foi a franco-canadense Margot Kidder quem conseguiu o papel. A química entre ela e Reeve beiraria a perfeição ao longo de quatro filmes.

No elenco, merecem destaque também Jackie Cooper (fazendo o editor do Planeta Diário, Perry White), Ned Beatty (o empregado e puxa saco de Luthor, Otis), a voluptuosa Valerie Perrine (a assistente do vilão, Eve Teschmacher), o veterano Glenn Ford (o pai adotivo de Clark, Jonathan Kent) e Terence Stamp, em pequena aparição como o General Zod, que seria o principal antagonista do herói na continuação de 1980.

Outros méritos da produção e do diretor foram aproveitar o que havia de melhor nos quadrinhos, reproduzindo pela primeira vez com decência o voo de um personagem. Os cristais da Fortaleza da Solidão antecipavam os pen drives atuais, armazenando uma quantidade sem fim de dados sobre a história de Krypton e do Planeta Terra. Superman sempre foi, nas HQs, uma metáfora para a jornada de Moisés: um órfão deixado pelos pais à deriva que é adotado e torna-se salvador de um povo. No filme, a essência dessa trajetória é mantida. Em versões futuras, cineastas o comparariam a Jesus Cristo.

A obra aliou sucesso comercial com o reconhecimento da crítica, conseguindo indicações ao prêmio da Academia de Hollywood nas categorias de Som, Trilha sonora e Montagem, e faturando um Oscar especial de Efeitos Visuais. Conseguiu ainda um Globo de Ouro e um Grammy, pela maravilhosa e eternizada trilha sonora de John Willians.

O roteiro conta a origem do personagem, a destruição de seu planeta-natal Krypton, seus primeiros anos em Smallville, a chegada a Metrópolis, o início da relação com Lois Lane e o primeiro confronto com Lex Luthor. Tudo bem feito, misturando certa dose de humor, ação, drama, elegância, romance e, principalmente, sendo fiel às HQs. No script, a principal diferença era a morte de seu pai adotivo, Jonathan Kent (Glenn Ford). Não há pressa em apresentar o herói vestindo o uniforme azul, vermelho e amarelo. Lição aprendida com o Tubarão (1975), de Steven Spielberg, e que seria usada por Christopher Nolan em Batman Begins. Investindo na expectativa da plateia, deixando a cereja do bolo, o grande momento da aparição do protagonista, para o meio da projeção. E são vários os diálogos, as falas deliciosas, inteligentes, certeiras. Alguns exemplos:

a ) Quando Superman é revelado ao mundo, salvando Lois da queda de um helicóptero no topo do prédio onde fica o Planeta Diário, o editor do jornal reúne, no dia seguinte, a redação:

– Quem conseguir entrevistá-lo fará a maior entrevista desde que Deus falou com Moisés.

b ) Em seu apartamento, Lois faz a entrevista exclusiva com Superman.

Lois – Você bebe?

Superman – Não bebo quando estou voando.

c) Perry White chama Clark Kent em seu escritório.

Perry – Cheguei até aqui com garra, agressividade, vontade. Sabe o que falta a você, filho?

Clark – Humildade?

Perry – Humildade você tem de sobra…

São alguns momentos, entre tantos, que anotei. Diálogos e frases espirituosos, divertidos, inteligentes. Não falta nem fan service, muito antes da série Smallville contratar atores que interpretaram personagens do universo de Superman no cinema e na televisão para participações especiais, Donner inclui uma rápida cena, dentro do trem, enquanto Clark corre do lado de fora. Nela estão os pais de uma então criança Lois Lane, indo a caminho de Metrópolis – eles são vividos por Kirk Alyn e Noel Neill, respectivamente o Superman e a Lois Lane em duas temporadas da série exibida nas matinês cinematográficas dos EUA em 1948 e 1950, batizadas de Super-Homem e O Homem Atômico Contra o Super-Homem por aqui. Neill reprisou a personagem (entre 1953 e 1958) no seriado televisivo estrelado por George Reeves, As Novas Aventuras do Super-Homem.

Glenn Ford e Phyllis Thaxter nos papeis de Jonathan e Martha Kent, os pais adotivos de Clark. 

E não faltam cenas imortalizadas. Além da citada primeira vez em que Superman salva Lois Lane quando o helicóptero em que ela está tem problemas, as duas fortalezas, a subterrânea de Lex Luthor e a da Solidão, do protagonista, o primeiro voo do casal quando Lois fala em pensamento e o final, com Superman girando o mundo ao contrário para evitar a morte da amada – nos quadrinhos da DC Comics idas e vindas no tempo são marca registrada da editora e esse artifício seria usado diversas vezes, inclusive na televisão (a exemplo da série The Flash, iniciada em 2014). Tudo é filmado com maestria por Donner. O diretor e equipe inovaram nos efeitos visuais, criando inclusive tecnologias necessárias para realizá-los.

O longa tornou-se sucesso de bilheteria, arrecadando mais de US$ 130 milhões em solo americano e US$ 300 milhões ao redor do globo. No entanto, os produtores não ficaram satisfeitos com os atrasos nas filmagens e decidiram substituir Richard Donner, que já tinha rodado 70% do segundo filme, chamando outro Richard, o Lester (de Os Reis do Iê-Iê-Iê, com os Beatles, de 1964, e Os Três Mosqueteiros, 1973), para finalizar as cenas da continuação.

Ancorado pelo enorme sucesso do anterior e o grande prestígio do personagem, Superman II: A Aventura Continua chegou aos cinema em 1980. A maior parte do elenco foi mantida e a história surgia com mais ação do que sua antecessora, levando Clark a se confrontar com três kryptonianos – Zod (Terence Stamp), Non (Jack O’Halloran) e Ursa (Sarah Douglas). banidos de seu planeta natal por Jor-El e que buscavam vingança.

Christopher Reeve (Clark), Margot Kidder (Lois) e Jackie Cooper (Perry White). 

Passados tantos anos, Superman - O Filme segue entre os preferidos nas listas de melhores adaptações dos gibis para o cinema. Eram tempos de personagens bem desenvolvidos, diálogos simples e bem escritos, e ação no momento certo. Suas influências são sentidas tanto em Superman, o Retorno (2006), que reverencia bastante o trabalho de Donner, até O Homem de Aço (2013), ainda que de maneira menos intensa ao misturar elementos dos filmes de 1978 e 1980.

O clássico envelheceu bem. Talvez não agrade tanto aos mais jovens, ávidos por velocidade e ação desenfreadas, informação e entretenimento fast food. Quando parece ser cada vez mais impossível curtir, viver, degustar, desfrutar, saborear os pequenos momentos e as coisas boas da vida.

No momento em que a humanidade enfrenta diversas dificuldades, do terrorismo à corrupção, da intolerância ao aumento das desigualdades sociais, um personagem como o Superman de Christopher Reeve é necessário. Precisamos de mais luz e menos trevas.

Reeve e o diretor Richard Donner. Dos cineastas mais subestimados, fez ainda a franquia Máquina Mortífera, Os Goonies e outros clássicos e cults. 

Superman – O Filme
Superman
EUA / Reino Unido / Panama / Canadá / Suíça. 1978.
De Richard Donner.
Com Christopher Reeve, Margot Kidder, Gene Hackman, Marlon Brando, Ned Beatty, Valerie Perrine, Jackie Cooper, Glenn Ford, Terence Stamp, Jack O’Halloran, Susannah York, Jeff East, Sarah Douglas, Phyllis Thaxter.
143 minutos.






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